Arquivo de Outubro de 2008

O que é um padrão?

Recentemente me envolvi em uma pesquisa um pouco distante de processos, relacionada a chamada “guerra dos padrões”. Foi o embate da Microsoft versus a maioria das empresas de TI do mundo pela definição e aprovação pela ISO do seu padrão de intercâmbio de documentos, o OpenXML.

Resumindo a história, existe uma busca por definir um padrão universal para a formatação, estrutura e conteúdo de documentos eletrônicos. Com isso seria possível criar um documento no Word e facilmente editá-lo em qualquer outra ferramenta de escritório. Ou, melhor, qualquer desenvolvedor poderia ter acesso aos meandros de como o documento está criado, podendo importá-lo, manipulá-lo e modificá-lo a vontade. As aplicações são inúmeras.

Algum tempo atrás, o pessoal da Sun, IBM e outras aprovou o padrão ODF (Open Document Format) na ISO como um modelo padrão de documentos. Legal. A extensão ODF passou a ser a utilizada pelas ferramentas do OpenOffice, a alternativa free do Microsoft Office.

Legal mas nem tanto. A maioria absoluta das pessoas usa o Office, e o Office não suportava o ODF. A Microsoft, meio que forçada a abrir o código dos documentos Office, ao invés de aderir ao ODF, resolveu criar o seu próprio padrão, o OpenXML, concorrente do ODF. E, para finalizar, resolveu submetê-lo também a ISO para que essa o aprovasse como um padrão.

Surpreendentemente, a ISO aprovou. Tem gente que até hoje não entendeu como, já que o OpenXML nem está pronto ainda, e nas versões preliminares foram encontrados milhares de erros.

Não vou entrar no mérito de qual é melhor ou pior, até porque não conheço os detalhes de cada especificação a fundo – e nem quero. O que me chamou a atenção nessa briga toda foi a questão de definição de um padrão. Por “padrão” entendemos inicialmente algum tipo de convenção, uma norma, um conjunto de regras que se todo mundo seguir a vida será mais fácil para todos.

Dessa “guerra de padrões” aprendi algumas coisas, lendo comentários e defesas dos dois lados, que são muito interessantes. Veja só:

  • Para uma mesma finalidade, um mesmo objetivo, é possível sim que exista mais de um padrão oficial. Isso parece até contraditório, e deveria ser. Mas não é. Veja o caso da ISO que aprovou dois padrões para a mesma coisa. O pessoal do lado do ODF tem um exemplo bem prático: o padrão 110 volts e 220 volts no Brasil. Por que temos esses dois padrões? O fato é que muita gente já queimou aparelhos por causa disso. E o plugue da tomada? Já notou que cada país usa um diferente?
  • Os padrões mudam com o tempo. Não deveriam, mas mudam. Ou deveriam, e mudam. O pessoal do ODF defende que a padronização é uma maneira de garantir a perpetuidade dos documentos. Isso é, abrí-los daqui 20 a 30 anos sem depender de ninguém. Mas o plugue da tomada no Brasil também vai mudar, você sabia? Pois é. Tomara que daqui a 20 ou 30 anos exista ainda pra vender algum adaptador de tomada para eu poder jogar o meu Super Nintendo.
  • A definição de um padrão é uma ferramenta estratégica. O Brasil, por exemplo, mudou o tamanho da bitola dos trilhos de trem para que não fosse possível uma invasão da Argentina. Se fosse a mesma bitola, poderiam entrar no Brasil trens argentinos com soldados e armas no passado.
  • Nem sempre o padrão mais fácil, mais completo e mais “lógico” é suficiente. Vai depender, muito mais, do poder econômico das entidades que o defendem. Ou seja, o interesse das empresas envolvidas na manutenção do padrão é mais importante do que o interesse final dos usuários que estarão usando o padrão no dia-a-dia.

Vamos voltar ao mundo de processos e BPM agora. Está ocorrendo uma briga enorme nesse exato momento para a definição de alguns padrões de processos, a serem utilizados pelas ferramentas e pelos usuários nos próximos anos. Em voga está o futuro de BPMN, BPMN 2.0, XPDL, BPEL e BPDM. Padrões para desenho, execução e intercâmbio de processos. Sim, pois padrões como o XPDL e BPEL, por exemplo, talvez estejam com os dias contados. Talvez.

O triste dessa história é que se essa discussão seguir o caminho tradicional, a opinião de quem usa e trabalha o dia todo com isso talvez não será levada em consideração. E sim a opinião e o interesse de algumas poucas mega- empresas de TI do mundo, que mais uma vez vão usar um padrão como uma arma de guerra.

1 comentário 1 de Outubro de 2008 às 10:28 Rafael Bortolini

Próximas Publicações


Calendário

Outubro 2008
S T Q Q S S D
« Set   Nov »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Minhas Publicações Recentes

Publicações por Mês

Meta